não vá ainda.
eu não sei. eu só não sei. num estado de completa ignorância da vida. eu tô ignorante nesses últimos dias. as pessoas falam comigo e eu. e eu. e eu depois de alguns segundos consigo entender o que estão dizendo. eu não tenho conseguido, também, dizer o que sinto. devagar. bem devagar. é tão devagar que acabo pensando mil vezes antes de falar. e então eu morro. eu tenho morrido diversas vezes ao dia. eu morri sábado passado. deitada na cama segurando o choro. morri. daí eu deixo o corpo alí e vou lavar o rosto no banheiro. quase imperceptível. o meu corpo tem se divertido muito, aliás. eu tenho dado grandes oportunidades para que ele seja imensamente feliz. o corpo, só. porque a cabeça já não entende mais. e eu tô calando as coisas da cabeça e do coração. eu misturo tudo e você, sabe, você é tão separado. separadinho como uma gaveta de talheres. e na tua gaveta eu não encontrei uma daquelas facas de cortar bolo. acho que não tinha, mas, pensando bem, não quis te deixar constrangido perguntando sobre ela. só que eu realmente queria saber porque é muito importante pra mim. fiquei quieta. eu também queria saber sobre a vida. e o que se planeja fazer dela, mas você esteve tão distante. tão ausente. e tão alí na minha frente que não prestei atenção em palavra alguma. e, olha só, antes de morrer no sábado, eu quis fugir. eu quase fugi. porque não teria espaço pra minha faca de cortar bolo na tua gaveta. ela requer um espaço especial, realmente não haveria como acomodá-la. eu tentei fugir, só que o corpo idiota tão feliz, tão feliz, não obedeceu aos meus comandos, mesmo estando ciente de todos os contras. e então, quando eu cheguei em casa de volta, na minha casa, na minha cama, na minha vida, tive certeza. não poderia ter fugido. talvez ainda haja espaço na gaveta de baixo. só tô esperando você me mostrar.
e eu prometo ser mais presente. ser mais feliz. chorar menos. te entender. deixar o tempo fazer de nós dois o que deve ser feito de duas pessoas. de dois lugares. de duas vidas.
eu tô presa ao fato de que pode haver espaço, apesar de ser incomodada com uma possibilidade pálpavel: você nunca, nunca, vai preceisar de uma faca de cortar bolo.
e isso é de partir meu coração.
e eu prometo ser mais presente. ser mais feliz. chorar menos. te entender. deixar o tempo fazer de nós dois o que deve ser feito de duas pessoas. de dois lugares. de duas vidas.
eu tô presa ao fato de que pode haver espaço, apesar de ser incomodada com uma possibilidade pálpavel: você nunca, nunca, vai preceisar de uma faca de cortar bolo.
e isso é de partir meu coração.


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